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De Profundis: A Ontologia de Guerrinha

Homem de diversas facetas, variadas funções e inúmeros talentos, Guerrinha é uma das forças mais criativas do underground brasileiro atual. Fruto inesperado de uma cena que nem sempre cultiva seus talentos da forma mais gratificante ou estimulante, ele fala muito acerca dos anseios e ansiedades que fizeram dele o que é hoje.

Além de ser uma das adições mais pesadas ao contingente nacional do Dekmantel São Paulo 2017 e da Gop Tun de 08 de Abril, ele é um dos músicos mais profícuos da nossa geração. Aqui ele faz um testemunho pessoal e uma profissão de fé musical tão intensa que apenas nos faz admirá-lo ainda mais como músico, produtor e um dos caras mais engraçados do meio. E, como trilha sonora para esse instigante intercâmbio, ele preparou um Gop Cast que você pode conferir logo aqui:

// Entre os afazeres do selo e dos grupos em que você está envolvido, sobra tempo para algum lazer? O que o Guerrinha faz no tempo “livre”? Você obedece a algum tipo de ritual criativo diário? 

Eu hoje em dia trabalho num café desses metidos a pomposo, sendo garçom e lavando louça de mulheres ricas que não parecem ter aversão a comer um pedaço de bolo inteiro. O salário é sofrível e agora não tem mais o 10% incluso na conta, sendo tudo ressarcido via FGTS – é o que dizem, eu duvido. Mas é uma coisa digna, já que  ideia de “ganhar pela minha arte”, no fundo, nunca aconteceu pra mim. E porque sempre fiz música, nunca tive muito compartilhei desses anseios da classe média de fazer uma “carreira com algo” ou “entrar no mercado”. Sem contar que me formei em ciências políticas, não tinha muita opção: ou virava trabalhador de mão encardida, ou tinha de aprender a soletrar inteligentsia para a academia.

// E, claro, tem a sua lendária habilidade de batizar de forma sempre primorosa (e jocosa) qualquer tipo de projeto musical. Esse talento é algo cultivado de forma consciente ou é um daqueles trunfos naturais que fogem a qualquer explicação científica?

Eu nunca entendi o por quê do seu nome ter obrigatoriamente alguma relação com a forma como você identifica seu som. Qualquer coisa que me recorda da palavra branding me dá calafrios. Acho muito mais interessante notar as relações que as pessoas têm com um nome do que a que eu tenho com ele. Você vê lá o line-up de um festival e tem uma parada chamada “40% Foda/Maneirissimo”… que tipo de reação a pessoa tem ao ler isso? É muito melhor a pessoa ver isso e sentir algo do que se o negócio se chamasse, sei lá…. “Kaos”, ou qualquer nome ruim desses. Acho mais bacana! Somos tão acostumados a querer identificarmo-nos com as coisas… E se fosse ao contrário? Talvez eu esteja errado esse tempo todo também, não sei. O fato de eu dar esses nomes nunca me ajudou muito tampouco.

// Então vamos abusar dela e propor um desafio: se fosse para você batizar as três pistas da próxima Gop Tun, quais seriam os nomes de cada uma?

O primeiro nome de cada um dos três tenores: Palco José, Palco Luciano e Palco Placido. Simples e fácil de lembrar.  E aí sim terão pessoas que vão se identificar com, no mínimo dois palcos, já que muitos Josés e Lucianos poderiam falar “vou ao palco com o meu nome!”. O palco Placido serviria basicamente para as abrigar atrações mais populares, porque o nome é terrível e o público evitaria, indo para os palcos com atrações esquisitas.

// E um palco no Burning Man? Se caísse na sua mão sua responsa, qual seria o tema e qual seria sua fantasia?

Eu definiria um tema bem literal: a fantasia seria passar querosene no corpo.

// Agora falando um pouco de temas mais mundanos: como você vê esse cenário recente de eventos pela cidade afora, seja no Rio ou em São Paulo? Elas e festivais como o Dekmantel fizeram uma diferença na sua vida como músico e DJ?

Essa resposta vai ser longa e emocional. O Rio sempre foi e sempre será difícil: As pessoas da Zona Sul são incrivelmente não-abertas e complacentes em relação ao novo. Creio que deve ser por essas mitologias do tipo “cidade da praia”, “a cidade da Globo”, “a cidade do samba”, “a cidade maravilhosa” e lixos afins de apelidos que deram pra minha cidade natal. Isso cria uma sensação de que a metrópole vai atrás de você, como se a CIDADE TIVESSE A OBRIGAÇÃO DE TE ENTRETER. E isso é exatamente o oposto do que fecunda a criatividade.

Para o outro lado do Túnel Rebouças, na Zona Norte e Oeste, as pessoas que têm fome de fazer coisas estão sempre “de olho” na Zona Sul. Elas veem os playboys da ZS como pessoas que bem-sucedidas, que estão tirando onda. Sendo que essas pessoas tão se esforçando pra fazer festa ou show para 20 gatos pingado. É tudo meio de mentirinha. É a cobra ouroboros do marasmo.

Você sente que a vida não passa aqui, Não dá nem pra falar com colega de escola: “nooooooosssa, há quanto tempo!”. Porque você provavelmente viu a pessoa andando na rua há umas 3 semanas. Além disso, toda a geografia e transporte público da cidade não ajudam e aqui não existe “gentrificação”, porque ninguém que mora em Botafogo está disposto a se mudar para a Pavuna ou algo do tipo. É claro que tem muita gente talentosa e com vontade de fazer algo novo, mas o passar do tempo vai te deixando frustrado. Em 10 anos de persistir tocando – tanto em bandas, quanto discotecando/fazendo live sets – pouquíssima coisa mudou. É chocante!

Eu sinto São Paulo como funcionando da maneira exatamente oposta. É tão fácil arranjar as coisas e mobilizar uma galera que, às vezes, se formam microcenas que são super-similares, mas elas não se conhecem. O que não acho interessante é que São Paulo não te dá a habilidade ser estúpido: as pessoas ficam meio bitoladas sobre “fazer o rolê” e esquecem que essa ética carreirística também não é lá muito profícua. Você vê pessoas obcecadas com “o que elas são e querem ser” que você não consegue ter muito espaço para coisas interessantes ou autênticas, e eu não quero dizer que “ser interessante” seja a mesma coisa que “ser bom”.

// Essa dinâmica é bem perversa, não? Alguma dica de como se desvencilhar dela ou evitá-la?

O ponto é que quanto mais eu faço música e mais “entrei” nesse mundo, mais percebi o quão íntima é minha relação com a coisa toda. Tenho 24 anos e, ainda que tenha começado a tocar em muquifos desde os 14, e nesses 10 anos de “fazer o rolê” acontecer tudo que aconteceu comigo é perceber o quão pouco eu preciso pra perceber que o troço é minha vida. Eu não aguento e eu tenho medo de ter que me auto-promover, ou arranjar 27913 mil shows ou torcer pra que 1k de pessoas ouça “o novo lançamento no soundcloud” e ter que pagar merda de anuncio de facebook, mas cada dia que passa eu me envolvo mais em diferentes gêneros. Recentemente fiz a trilha para os intervalos da Globonews e gravei/mixei discos para bandas de rock. Foi super interessante e amei que eu não precisei alardear isso. Enfim, a verdade é que a gente entra nessa armadilha de “carreira” mas tudo isso é uma coisa muito pequena. É uma armadilha que fiquemos preocupados em conseguir mais e criar expectativa sobre tudo, quando na verdade a precisamos de muito pouco pra perceber a grandiosidade que é a música. As coisas mais belas que eu já vi ao vivo foram as que deviam ter, no máximo, 10 pessoas presentes. Acho muito bonito quando você encontra outras pessoas que percebem o mesmo. Tem muita gente talentosa no Rio, e em São Paulo e no mundo inteiro, mas todos nós estamos sendo sugados por esses jogos infrutíferos.

// E quanto a essa vida artística dupla a que todos estamos sujeitos hoje em dia? Sua carreira surgiu neste momento em que um se vê forçado a ser o outro e vice-versa. Você gostaria de estar fazendo o que faz em outro momento, como a década dos noventa em que produtor ficava no estúdio e DJ na cabine?

Eu amo fazer os dois, então nesse exemplo, não. Porém, como disse acima, tudo que eu não quero mais na minha vida é ser meu próprio empresário. Ainda assim, a verdade é que música é uma coisa auto-sustentável. E é óbvio que é muito difícil aceitar mudanças, tentando se encaixar em algum molde do passado, acaba sendo a melhor cura pra esse sentimento. Tendemos a romantizar a parte boa, mas a verdade é que se você senta e conversa com alguém que fazia musica antigamente e eles vão te dar uma lista de coisas que eram um saco e que pode ser bonitinho pra você falar “eu amaria ter que fazer isso” mas no fundo se você tivesse na mesma situação você provavelmente ia achar um saco. É óbvio que nem todo avanço tecnológico é “o melhor”, mas nenhum deles sucede de graça.

// Se você pudesse seguir aquele método inaugurado pelo Nas em “Illmatic”  e escolher um produtor brasileiro para cada faixa de um álbum seu, qual seria o time?

No “Guerrilmatic” só entra a galera companheira/amiga:

1. The Guerrinessis Produced by Thiago Rebello Drums by Leo Monteiro
2. RJ State of Mind Produced by Balako Keyboard solo by Chico Freitas 4:53
3. Guerrinha’s A Bitch Produced by Lucas de Paiva Drums by Luiz de Urjais 3:30
4. The World Is Yours, Guerrinha Produced by Akira S. Keyboard solo by Savio de Queiroz, Rap by Robson Gomes 4:50
5. Guerrinhatime Produced by Psilosamples Drums by Lucas “Lufreire” Freire AKA lucasfrol@hotmail.com 4:20
6. Guerrinha Lane (Sittin’ in da Park) Produced by Erica Alves Bass solo by Felipe “Velloster” Vellozo 4:08
7. One Guerrinha (Edit) Produced by Salisme, Edited by Selvagem Guitar solo by Eduardo “Verdejinha” Verdeja 5:25
8. One Guerrinha 4 Your Mind Produced by Pedro Zopelar & Zeca Veloso Sax solo by Myriam Moreira, Mixed by Pedrinho Garcia 3:18
9. “Represent R.J.” Produced by Lucas de Paiva Drums by Nathalia Viccari, additional violins by Felipe Ventura 4:12
10. It Ain’t Hard to Tell (Where Is R.J. and Where Is S.P.)” Produced by Seixlack Keyboard solo by Guilherme Marques

// E quanto aos gringos? Quem você contaria entre aqueles que te inspiram e até causam certa invejinha branca ou até mesmo com quem você curtiria colaborar?

Nossa! Muita gente, mas vamos tentar escolher. Eu amaria fazer/participar de dois projetos:

1) O Lyle Mays e o Jack deJohnette visitam os estúdios do Ronald e Rheji Burrell da Nu Groove pra tentar fazer um album cover da trilha sonora do Bomberman Hero.

2) Aquela banda mineira Aum, em 1983, prevê a existência do disco “Midtown 120 Blues” de 2009 do/de/da DJ Sprinkles durante as sessões gravações do seu disco “Belorizonte”, decidindo fazer um disco duplo: um com as músicas do Belorizonte e outro com covers de Midtown 120 Blues.

// Então, para finalizar e deixar uma nota inspiradora para as próximas gerações: quais suas inspirações fundamentais e fizeram do Guerrinha o que ele é hoje?

Resiliência sempre! Embora o mais importante seja: eu nunca cedi em nada do que eu fiz e eu jamais ouvi conselhos que não pudessem tornar minha relação com música o mais bela e prazerosa possível. Eu raramente consigo o que quero e, pelo visto, nunca vou conseguir fazer a faixa perfeita, mas tampouco fiz concessões para absolutamente ninguém. Eu aperto a mão das pessoas sabendo que posso ser um músico fracassado e frustrado, mas que também sempre optei e sempre optarei pelo caminho que fosse o mais interessante e belo para a minha eternidade. Se música é o que vai seguir com a gente a vida toda, então a gente não deveria estar preocupado em achar os caminhos mais curtos. Porque aí o negócio vai demorar muuuuuuuuuito mais.

O nosso Guerrinha se apresenta na próxima Gop dia 08/04 junto com Maurice Fulton, Dekmantel Soundsystem, Skatebard, Paramida, Cashu, Benjamin Ferreira, TYV, Gui Scott, Nascii, Caio T e Kurc. Mais infos do acontecimento no link abaixo:

https://www.facebook.com/events/240292876380090/

 

 

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